Quando o Alvinho, um dos diretores do filme, me convidou pra fazer essa trilha, confesso que fiquei um pouco inseguro. Afinal, filme infantil e música infantil não são coisas que têm muito a ver comigo. Eu nem gosto muito de filmes infantis na verdade. Mas aceitei não só pela amizade como também pelo desafio, e pelo prazer, claro, de fazer essa trilha. No final das contas foi um trabalho bastante divertido e bacana. O Alexandre Garcia, também diretor do filme, não tinha exatamente ideia de que músicas usar. Mas me mandou algumas referencias. Referencia é algo que ajuda muito, pois você tem ali algo concreto com o que se basear. Já não é uma folha em branco. Há um esboço a ser seguido.
Utilizei também as minhas referências. Que são as músicas de filmes e desenhos de aventura dos anos 80, época da minha infância, bem como os filmes atuais que passam na sessão da tarde. Essas idéias me ajudaram bastante a compor as músicas do filme. É um filme de aventura, imaginação, fantasia. Confesso que nunca tinha prestado atenção nessas músicas até então. Lá estava eu, vendo e prestando atenção em filmes de cachorrinho. Lembrei também das trilhas de desenhos como Thunder Cats (aliás uma das trilhas sonoras mais geniais que já ouvi), filmes como Indiana Jones, Rambo, Super Homem, Star Wars, enfim, idéias do compositor John Williams na maioria. Grandes orquestrações, coisas grandiosas, etc. Era o que o Alvinho, principalmente, tinha em mente.
Utilizei um software em boa parte da trilha. Infelizmente a realidade do cinema brasileiro, e do curta-metragem principalmente, não é fácil, nem no Brasil e muito menos em Curitiba, diga-se de passagem. Teria sido muito mais interessante se pudéssemos usar toda uma orquestra, com metais, cordas, etc, mas não deu, pois não houve verba suficiente para isso. E gravações de orquestras são uma facada. É preciso pagar os músicos, e uma orquestra com trinta pessoas já é um rombo no orçamento. Esse filme realmente pedia que houvesse uma música grandiosa. Então fui fuçando o programa até descobrir os melhores timbres, que dessem uma sensação parecida com o som real dos instrumentos. Foi um grande aprendizado, pois até então eu tinha utilizado os sons realmente eletrônicos que o software tinha para outas trilhas de outros filmes que eu tinha feito. Tentar tornar um som artificial em um som natural não é nada fácil. Na realidade chamei um músico para as melodias de oboé, e toquei bateria e violão em alguns trechos também.
De modo geral a trilha desse filme utiliza uma melodia que se repete em diferentes momentos do filme, com mudanças de arranjos. E essas mudanças acontecem de acordo com as intenções das cenas. E também há temas de personagens. O personagen do tio "Eriberto", por exemplo, tem um teminha que se repete quando ele aparece, em diferentes momentos, principalmente quando o menino procura por ele e ele ressurge. Esse "teminha" tem a intenção de representar uma espécie de segurança, alívio ao menino, perdido em sua imaginação.
Aos 3 minutos de filme há uma cena que acontece em uma floresta. Utilizei como referencia o filme "Rambo II", quando o menino e o tio estão andando pela mata. Lembrei das cenas em que o Rambo se camuflava na floresta, pegando os inimigos de surpresa (lembram?). Esse clima tinha bastante a ver com o que a cena pedia. Em seguida, quando os personagens são perseguidos pelos índios, utilizei como referência o desenho dos gárgulas. Confesso que a ideia surgiu enquanto esse desenho estava passando na tv. Nem sou um espectador maníaco de desenhos. Mas achei que essa referencia serviria para o filme. Todas as cenas de ação desse desenho seguem essa linha: http://www.youtube.com/watch?v=4BF9BZ773KM&feature=related. E o filme, de certa maneira, segue também nesse passo. O tema principal, que ocorre nos créditos finais, é bastante baseado nos temas principais de filmes como Indiana Jones e Star Wars http://www.youtube.com/watch?v=EjMNNpIksaI. Lembra um pouco uma marcha, algo que o John Williams utliliza bastante.
Enfim, acho que a trilha sonora tem um papel importante, principalmente em filmes de ação e aventura, e mais ainda se forem filmes infantis ou animações. No Memórias do Meu Tio, praticamente tem trilha o tempo todo. Mas fica bem claro que o papel da trilha aqui funciona como um elemento puramente narrativo. A música não excede ao filme. Serve na verdade para realçar/ ressaltar intenções. A trilha sonora no cinema na grande maioria das vezes não é um personagem, mas um mecanismo. Bom, não vou me estender demais. Me falta paciência e competência mesmo pra abordar melhor tudo isso.
Abaixo segue o filme Memórias do Meu Tio:
Filme Memórias do Meu Tio